segunda-feira, 18 de julho de 2011

Eterno

por Carlos Drummond de Andrade


E como ficou chato ser moderno
Agora serei eterno
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

Parabéns


- O que é eterno, Yayá Lindinha?
- Ingrato! Eterno é amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
Eternissímo
A cada instante se criam novas categorias do eterno
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e 
nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; 
e passageiras as obras
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação e vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Felicidade e sucesso sempre!


Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E eu desapareça mas fique este chão varrido onde passou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra 
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Eternamente!!!







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