quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

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Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentabilidade nehuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca 
ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento 
de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das 
outras;
Compreendi  isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro
(Fernando Pessoa)

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