sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Morte de Lindoia

Da série: Eu li isto na Infância


A mais bela passagem de "O Uraguai" de Basílio da Gama 
Lindoia era esposa do guerreiro Cacambo que foi assassinado e ela, prometida a outro. Lindoia por sua vez preferiu a morte.




Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista e teme encontra-lá
Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrera, a misera Lindoia
Lá reclinada como que dormia
Na branda relva e nas mimosas flores
Tinha a face na mão e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de  perto 
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe os seios
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe
E nem se atrevem a chama-lá, e temem
Que desperte assustada, e irrete o monstro
E fuja, e apresse, no fugir a morte
Porém o destro Caitutu que treme 
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco e quis três vezes 
Soltar o tiro e vacilou três vezes
Entre a ira  e o temor. Enfim, sacode
O arco e  faz voar a aguda seta
Que toca o peito de Lindoia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro e, em tortuosos giros 
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno
leva no braço a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão que, ao desperta-lá
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno e  vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito 
De olhos em  que Amor reinava um dia 
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que o surdo vento e os ecos tantas vezes 
Contou a larga história de seus males
Nos olhos de Caitutu não sofre o pranto
E rompe em profundíssimos suspiros
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo
Inda conserva o pálido semblante 
Um não sei quê de magoado e triste
Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no seu rosto a morte!


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